Wednesday, November 07, 2001

Uma prece para ninguém - Epílogo



Depois de muito tempo, o dia ameaçava finalmente raiar, mas ainda assim a escuridão tomava conta do horizonte. A chuva cessara, e ele hesitava a cada pensamento. O penhasco não estava muito longe, e a hora de decidir era aquela, imaginou. Tudo caminhava para aquele desfecho, mas um medo insano o imobilizava por completo.
E eis que os sinos voltaram a badalar. Ali, deitado de lado, protegido por uma rocha saliente, começou a tentar se desvencilhar daquele ruído que lhe soava insuportável. O sonho estava real demais e já era hora de despertar, só que nada acontecia.
Os sinos começaram a ficar nítidos. As badaladas estavam mais próximas. Olhou para cima e percebeu uma claridade inquietante. Com muita dificuldade, ergueu-se e observou uma espécie de casa a cerca de 300 metros de onde estava, na outra estremidade do penhasco. A casa não estava ali quando chegou ao topo.
Parecia com um autêntico sobrado de praia. Bem no alto, no que parecia ser a frente da propriedade, um sino, dando um aspecto de igreja. A casa estava toda iluminada. Na mureta da frente da casa, a menina de vestido branco estava sentada e olhava de modo distraído para o horizonte.
Sentia-se agora completamente atraído por aquela visão que sabia (sabia?) ser irreal. Aquilo era uma visão, a casa não existia, não estava ali quando ele atingira o topo. Mas a visão estava real demais para ser ignorada.
Pensou que finalmente conseguiria tocar a garota, depois de se aproximar com muita dificuldade da casa. Se ela era a resposta para tudo, já era hora de ela revelar o que realmente estava acontecendo no mundo. Ele não percebera, mas a garota não estava mais na mureta, e sim dentro da casa, olhando para ele de uma janela lateral.
Subiu a pequena escada que dava acesso ao que seria uma varanda e dirigiu-se à porta de entrada. Como que por pensamento a porta se abriu. A claridade dentro da sala era tanta que ofuscava completamente a vista. Só depois de algum tempo é que ele conseguiu ver onde estava e o que era aquele ambiente. Aos poucos a casa começou a ficar familiar. Ecos da memória começaram a pipocar em sua mente, escavando e resgatando fantasmas há muito escondidos no subconsciente.
A garota continuava com seu olhar inquisitivo, amedrontando-o. Enquanto começava a suar frio, o cordão de metal envolta de seu pescoço pareceu-lhe mais pesado e mais apertado. A sensação de desconforto aumentava na medida em que a menina olhava cada vez mais fixamente para ele. Amparou-se em uma das paredes da sala e agora estava sufocando. O cordão estava cada vez mais pesado e apertado. O calor estava insuportável e sentia que a medalha do cordão queimava-lhe a pele do peito. Aos poucoa começou a arriar pela parede, com fraqueza aumentando bastante. Pela primeira vez sentiu medo da morte.
Enquanto se mantinha sufocado e de joelhos, a menina aproximou-se, mas não tao perto. Ela apontou o dedo indicador da mão direita em sua direção. Subitamente a pressão no pescoço diminuiu e ele passou a respirar com um pouco mais de facilidade. O medalhão no peito parou de queimar, mas o cordão permanecia pesado.
A menina virou-se e foi para uma escada, subindo lentamente. Mesmo enfraquecido, estava sendo impelido a segui-la. Levantou-se com dificuldade e foi á escada. Amparado pelo bastão, começou a subir lentamente. Após alguns minutos, já no alto, viu a menina entrar no que parecia ser o quarto principal, de onde vinha um forte vento e uma claridade cegante.
Nem percebeu quando chegou ao quarto. O que percebeu era que ali dentro todo o barulho cessou. Um silêncio reconfortante dominava o ambiente, que estava muito bem decorado. Uma enorme cama estava do outro lado do recinto, coberta com o que parecia ser um lençol de seda. Os móveis - mesas, cadeiras, criado-mudo, penteadeira - eram todos de estilo clássico, de madeira escura. O papel de parede era claro, avermelhado, e o lustre era enorme, cheio de pingentes.
Na cama, uma mulher deitada, com a cabeça no colo da menina de branco. Quando pensou que o ambienbte lhe traria paz de espírito, a visão das duas mulheres na cama caiu como uma bigorna em sua cabeça. O silêncio tornou-se opressor novamente, o cordão começou a apertar-lhe novamente o pescoço, sufocando-o. Caiu de joelhos, ao mesmo tempo que um turbilhão de imagens passavam pela sua mente.
O rosto inerte da mulher na cama era conhecido. Era muito mais do que conhecido. O peso de anos e anos de fuga e desespero caíam agora sobre os seus ombros. Jamais poderia escapar daquilo que poderia ser chamado de justiça atemporal: onde quer que esteja, seja aonde for, a justiça será feita.
Com muito medo e pavor, sufocado pelo cordão, olhou novamente para o rosto da garota deitada na cama, que vestia uma túnica vermelha. Imediatamente vieram as imagens da linda e fulgurante garota que jazia na cama sorrindo e correndo pelo gramado de uma imensa propriedade. Em seguida, ela subia uma imensa escadaria, que parecia não ter fim. A escadaria era a mesma da casa onde esava naquele momento. Assim como o quarto da imagem seguinte era o mesmo onde estava. A garota chorava enquanto agarrava-se a uma cortina, tentando se proteger de golpes dados com bastão. Ele reconhecia a mão que segurava o bastão. Aquele relógio o denunciara. Era o seu próprio relógio de pulso, aquele que ganhara de presente do pai quando tinha 12 anos de idade e o qual jamais tirou do pulso.
As imagens começaram a ficar cada vez mais rápidas. Agora, em sua mente, a garota estava deitada, inerte e ensanguentada com a mesma roupa, na mesma posição e na mesma cama que via quando abria os olhos. Aí começou o fogo.
Abriu os olhos depois de um espasmo de desespero e percebeu que o próprio quarto onde estava tinha chamas na cortina da janela e na cama. Caindo de fraqueza, estava agora deitado, tentando inutilmente arrancar o cordão do pescoço, que apertava cada vez mais.
Estava prestes a desfalecer quando a menina de branco aproximou-se e tirou o cordão do pescoço. A garota de túnica vermelha estava oa lado da garotinha e apresentava um bonito colar com a letra V no medalhão. Ela olhava fixamente para o rosto dele, quase enegrecido pela fumaça.
A garotinha retirou o cordão e colocou-o na frente do rosto dele para que pudesse vê-lo. Em lugar do medalhão, havia uma frase escrita: "Vitória se foi". O desespero dele foi tamanho que sentiu uma dor lancinante nas costas. Não é possível que Vitória havia voltado para transformar sua vida, ou o que restava dela, num inferno.
Mesmo diante das imagens incontestáveis que foram induzidas em sua mente (assim acreditava), ainda se recusava a crer que a havia matado. Aquilo era um sonho, um desagradável sonho, por mais que a fumaça invadisse agora as suas narinas e os pulmões. Antes que a mesma fumaça o obrigasse a fechar os olhos, ainda teve tempo de ver a menina e Vitória saírem do quarto de mãos dadas como se nada estivesse acontecendo. e não esqueceram de fechar a porta.
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Estava deitado nu em um quarto completamente escuro. Estava frio e não conseguia sentir nenhuma parte de seu corpo. De algum lugar de fora do quarto, escutou o seguinte diálogo:
- E agora?
- Apenas mate-o.
Foi a última coisa que ouviu.

Uma prece para ninguém - Capítulo 8




Ele chegou ao pé do penhasco e desfaleceu de cansaço. Acordou com uma pequena garoa, mas que o deixou inteiramente molhado. O céu estava escuro. Era noite ou ainda era o amanhecer daquele dia insano? Tentou se levantar mas faltou-lhe equilíbrio. Caiu de boca na areia molhada. Em nova tentativa de se levantar, sua mão involuntariamente esbarrou em uma espécie de cordão grosso de pescoço.Na verdade, sua mão foi espetada por uma das pontas do que parecia ser um crucifixo.
Sentou-se novamente e ficou observando e admirando o objeto. De imediato não identificou o objeto, mas não perdeu muito tempo com isso. Uma forte sonolência o acometeu e acabou adormecendo mais uma vez.
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Acordou com o barulho das ondas e com mais uma forte garoa. Parecia que o dia estava novamente amanhecendo, com alguns fiapos de luz atravessando as nuvens, mas só parecia. O cordão de metal ainda estava em sua mão. Não lembrava de como o tinha encontrado. Instintivamente colocou-no pescoço. Sua preocupação agora era como chegar ao topo dos quase cem metros de penhasco, segundo seus cálculos.
Não havia solução, exceto pelo fato de que um pequeno vulto o olhava de modo severo. Estava às suas costas, mas logo ele a percebeu. Era uma menina, pouco menos de dez anos de idade, mas com uma pele alva e um vestido igualmente branco. Por alguns instantes ele duvidou de que ela realmente estava ali. Esfregou os olhos. Ela já não estava mais no local onde estivera.
Imaginava que era alucinasção pelo fato de estar exausto e com fome, mas eis que a garota reaparece, agora à sua frente.
Assustado, começa a procurar a parede do penhasco para se apoiar. Ela o olhava fixamente. Num piscar de olhos e ela desaparece, reaparecendo agora perto da água da praia, mais distante. Ele estava petrificado e começou a suar muito quando aquele "fantasma" caminhou em sua direção. A poucos passos a garota, que em nenhum momento alterou o seu semblante, apontou para ele e em seguida para o cordão em seu pescoço. Com o olhar duro e inqusitivo, pareceu dar-lhe um recado. Em seguida virou-se para o lado direito dele e começou a andar em direção a uma das extremidades do penhasco, que adentrava o mar.
Mesmo apavorado, sentiu-se compelido a segui-la. Manquitolando e apoiado no bastão de madeira, foi aos poucos se arrastando atrás da criança. Ao chegar à reentrância do penhasco para o mar (o rochedo interrompia a continuidade da praia), viu uma pequena fenda. Esgueirou-se por ela e percebeu uma passagem oculta. Era um corredor muito escuro por dentro da rocha. Guiando-se por uma pequena fresta de luz, seguiu em frente, ora tropeçando, ora esbarrando em saliências.
O que pensou ser uma fresta de luz era na verdade a menina, que emanava um brilho intenso e o esperava ao final daquele corredor. Era uma espécie de rampa com uma escada ao final. A menina seguia a passos rápidos e ele tentava aos trancos e barrancos percorrer aquele caminho.
Após muito tempo subindo por entre o paredão de rocha, chegou ao que parecia ser uma escada esculpida nas rochas. Não havia mais sinal da garota. A cada degrau vencido, parecia que a morte o agarrava pelos pés e o puxava para baixo. Foram horas de suplício até que sentiu o vento frio carregado de chuva vindo de cima. Pouco tempo depois estava no cume do penhasco. Arrastou-se pesadamente para trás de uma rocha, onde mantinha-se parcamente protegido. Ainda estava escuro e o dia ameaçava aparecer, mas nunca aparecia.
Cada vez que pensava em desistir definitivamente, a imagem da menina vinha-lhe à mente. Não era possível que agora, justo agora que ele tinha mais uma oportunidade de acabar com aquele inferno. No penhasco, pensou, era a única forma de tentar voltar à vida com um salto no escuro. Ou voltava à vida ou saía dela. Não aguentava mais aquele delírio. Mesmo assim sentia-se imobilizado. Estava convencido de que tinha suficiente coragem para perpetrar o que estava chamando de "último vôo". Mas então porque não levantava e se arrastava até a beira do penhasco? Não tinha resposta, mas a criança sempre aparecia em sua mente. Assim sendo, ela só poderia ser a resposta para aquilo tudo.

Uma prece para ninguém - Capítulo 7



Ofegante e completamente molhado de suor, instintivamente ele se afastava da fonte de calor se arrastando para o meio da microvila. A cabeça e a perna doíam demais, mas aos poucos ele retomava a consciência. Todas os casebres estavam pegando fogo. Seu único refúgio era a praia. Parando para respirar e descansar, admirou o espetáculo de longe. Estava se especalizando naquela piromania. Primeiro o posto de gasolina, depois o Porsche, agora aqueles casebres. Ainda não conseguia entender o porquê de fazer aquilo, mas sentia imenso alívio quando o fazia.
Quando anoiteceu a vila ainda ardia. Apesar de saber que de nada adiantaria, no íntimo esperava que aquele fogaréu chamasse a atenção de alguém. Mas de quem, se havia um complô de Deus contra ele, obrigando-o a ser o único ser humano do planeta?
Esfriou um pouco com uma ventania fora de hora vinda do mar. Ele se arrastou para perto de uma mureta que separava a praia dos casebres e conseguiu ainda se beneficiar um pouco do calor das chamas. Foi a última coisa que fez naquela noite.
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Aquele era o pior despertar que teve na sua vida. O frio era intenso, o vento cada vez mais forte, mas o que o incomodava era que tinha caído de boca na aria, sem contar a lancinante dor de cabeça. Por alguns segundos achou que a tudo estava acabando, mas toda aquela circunstância deixou de ter importância a partir do momento em que pensou ter ouvido sinos badalando.
O dia amanhecia lentamente e o vento trazia o ruído do sul, ao longo da praia. Cada vez mais em estado mental confuso, simplesmente deixou-se levar pela idéia de que os sinos eram a resposta para tudo, ou melhor, eram a solução daquele pesadelo. Como que entorpecido pela cantoria de uma sereia, lançou-se na direão de onde achava que estava a origem do som. Primeiro arrastou-se. Depois reuniu forças, equilibrou-se no bastão e passou a a caminhar lentamente.
Teve a impressão de que andava há horas, mas o dia não amanhecia definitivamente. O céu permanecia naquela zona híbrida entre a madrugada e a manhã. Olha para trás e não via mais nem mesmo a fumaça do incêndio dos casebres.
O som dos sinos continuava intermitente, mas ele nunca se aproximava. Tinha a impressão de que, por mais que caminhasse em direção ao ruído, jamais chegaria a lugar algum.
Exausto, sentou-se à beira da água e procurava algo no horizonte para entender o que se passava. Tentava ignorar a dor da perna lesionada, mas em alguns momentos gritava por não suportá-la. A questão é que não escutava a sua voz.
Quando parecia que iria desfalecer para sempre, um sopro de esperança invadia seu cérebro ao ouvir os sinos, intermitentes e profundamente apelativos. Não conseguiu saber como pôs-se de pé, mas quando percebeu já estava novamente em marcha, perto de uma pequena elevação.
Com muito esforço subiu aquela que parecia ser uma duna. Como que por encanto o som dos sinos pareceu estar menso distante. O estranho é que agora o som parecia estar vindo do oceano. Viu ao longe, bem longe, um penhasco. Como que por impulso foi em direção a ele. Decdiu parar de pensar. Seu único objetivo agora era chegar ao penhasco. Quem sabe dessa vez terria mais sucesso do que da vez anterior no promontório.

Uma prece para ninguém - Capítulo 6



Acordou depois de um violento acesso de tosse, expelindo água salgada. A boca estava cheia de areia. O sol estava forte agora, queimando-lhe a face machucada. Procurou certificar-se de que estava vivo. A maior prova disso era a sua perna esquerda, que doía muito. Estava quebrada? Provavelmente.
ele tentou se arrastar até as pedras para fugir da água do mar. Minutos depois, exausto, tentava entender porque continuava vivo. As explicações eram vagas, mas não faziam diferença naquele momento. A questão agora era a seguinte: se ele não conseguia nem ao menos morrer, o que esperar do resto de sua lamentável vida?
Ele tentava se locomover em direção ao que parecia ser uma vila de pescadores ao longe, na própria praia. Pelas suas contas e pela posição do sol, imaginava ser no meio da tarde quando finalmente atingiu os limites dos cinco casebres mal construídos. Teriam se passado mais de cinco horas desde que tinha voltado à consciência e seu esforço fora descomunal. Com a ajuda de um bastão, postou-se de pé e conseguiu entrar no primeiro casebre a sua direita.
Sentiu cheiro de café. Um bule no fogareiro antiquíssimo ainda fumegava. Com uma xícara suja na pia, bebeu um pouco e passou a acreditar que realmente poderia escapar daquela dimensão esquisita onde caíra. Lutava para livrar-se do sonho, mas não conseguia. Agora, com aquele café quente, esperava ter condições de escapar daquele pesadelo.
Seu aspecto era o pior possível: sujo, descalço, com as roupas rasgadas e com hematomas e cortes por todo o corpo. O fim da linha ainda estava bem longe, ele pressentia.
Só lhe restava agora chorar. E chorou, chorou bastante de desespero.
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Decidiu percorrer as outras quatros casas da microvila. Nem sinal de ser vivo. Em uma delas parecia que alguém estivera ali há pouco. Estava tudo arrumado e havia cheiro de comida. Teve um pouco de ânimo e comeu um pedaço de bolo de chocolate. Procurou desesperadamente uma bebida alcoólica, qualquer uma. Não achou.
Na sala exígua desse casebre, havia um punhado de estopa em um canto. Sentou-se nele e procurou esforçar-se para adormecer. Desde que tinha despertado naquela maldita dimensão ele imaginava que, dormindo, poderia acordar de volta à normalidade. No entanto, não seria daquele vez que conseguiria.
Apesar disso, parecia que as coisas começariam a fazer sentido. Não tinha idéia se estava sonhando ou não, mas a imagem era nítida. A garota estava a pouco mais de cinco metros dele em um gramado imenso. Ela apontava para ele, inquisitorialmente. Ele gritava pelo nome dela. Sua angústia aumentou ao perceber que sua voz não saía. Tentou levantar, mas estava preso ao chão. Ela apontava o dedo para ele acusando-o, culpando-o, com ira nos olhos.
Para ele as coisas estavam piorando, e de forma bem depressa. Era tudo o que ele não precisava naquele momento, um fantasma do passado para acelerar a sua queda no inferno. Ele queria gritar, mas a voz não saía. Ele queria agarrá-la, mas não conseguia se mover.
O campo gramado agora virou uma imensa fogueira. A garota continuava a apontar para ele, mas lentamente se afastava até desaparecer dentro das chamas. Tudo estava quente, sentia até mesmo seu cérebro parecia cozinhar. Insuportavelmente quente. E angustiante. E tenebrosamente assustador. Ele estava preso a um dimensão desconhecida e ansiava por ajuda, por ter a companhia de alguém para dividir seu desespero, mas o máxio que atingiu foi ter a desesperadora visão dela, ali, parada, apontando para ele. Logo ela, que estava morta.

Uma prece para ninguém - Capítulo 5




O começo da manhã trazia um fraco raio de sol na praia, mas o vento era muito forte e frio. Ainda sobrara uma única garrafa de uísque de milho, e ainda pela metade. A agonia estava aumentando. O pesadelo não acabava e a perspectiva de ser o único ser humano na face do planeta era pode demais absurda para ser considerada.
Ecos e fragmentos de dias anteriores iam e voltavam na mente. Pessoas conhecidas berravam e gritavam, mas ele nada escutava. O ambiente estava caótico, mas percebeu que conseguiu, por certo momento, manter a lucidez. Tentava agarrar-se ao máximo a essas imagens, mas logo em seguida era atirado ao presente pelo barulho das ondas do mar.
O Porsche estava ao longe, ainda incandescente. Sabia que havia posto fogo no carro logo que chegara à praia, ainda de madrugada, mas não tinha idéia do motivo.
Caminhou lentamente em direção a um pequeno promontório na ponta da praia e por um momento decidiu se livrar da garrafa de uísque. Não havia caminho de volta, determinou. Aquilo estava indo longe demais. Se aquele era o preço de sua autodestruição, já estava pagando muito além do que deveria. Pela sua ótica, havia tentado de tudo para entender o que se passava, mas sem sucesso. Estava louco? Talvez. Mas o que importava? Se havia caído em um buraco negro de alguma dimensão temporal paralela, que diferença fazia? Provavelmente ele teria de continuar vagando por aí, carregando todo o peso de sua estupidez em suas costas.
A única forma de se livrar daquela imensa bobagem era voltar ao passado. Ele não estava disposto a pensar muito sobre aquilo. Como um saltador olímpico, atirou-se do penhasco não muito alto que havia na ponta do promontório. O mar estava muito agitado com o forte vento. Mas ele não se assustou. Nada tinha a perder. Apenas o seu passado.
Uma prece para ninguém - Capítulo 4





Quase sem combustível, finalmente ele achou um posto ao final de um vale na estrada deserta. Enquanto abastecia, sentiu uma forte pancada na cara. Era o vento jogando poeira, com feixes de pó açoitando-lhe a face. Refugiou-se em um pequeno empório ao lado do posto. Na verdade, era um boteco. Parecia que havia sido limpo há pouco, mas nem sinal de seres humanos. Já esperava por isso.
Com uma garrafa de uísque vagabundo de milho na mão, deu um violento pontapé em uma jokebox caindo aos pedaços que estava perto do balcão. Ela começou a cuspir uma desprezível música country tristonha e chorosa. nem prestou a atenção, apenas queria som para preencher aquele vazio quase insuportável.
A questão agora começava a complicar, mas ele se recusava a se preocupar com isso. Não tinha ânimo nem paciência. O que fazer se ele era o único habitante do planeta? Logo a comida nos supermercados estragaria. Onde obter alimentos? O mesmo ocorreria com frutas e legumes nas plantações. O combustível? Logo estragaria nas bombas e nas refinarias, mas ainda daria tempo de ele percorrer longos trechos para se distrair.
O que ele queria na verdade era conversar com alguém. Fazia tempo que ele não socava ninguém e estava sentido a mão atrofiar. Nunca poderia imaginar que um dia ficaria sem ter a quem socar.
Ao final da primeira garrafa ele tentava ordenar o pensamento para traçar a linha de ação. A idéia era... passar o tempo? Começou a imaginar o que estava acontecendo pela primeira vez no dia. Por diversas vezes tinha descartado o sonho. Tudo aquilo era bem real. Estaria em uma dimensão paralela? Como tinha ido parar lá? Estaria sob efeito de remédios? Teria sido ele o único sobrevivente de uma guerra de nêutrons ou uma guerra biológica?
Tentava buscar respostas, mas já estava no final da segunda garrafa. Tudo o que conseguiu foi decidir que iria para a praia. Nada havia a fazer naquele fim de mundo, longe de tudo e de todos (todos?).
A última coisa que conseguiu lembrar foi do boteco pegando fogo rapidamente. Entrou no carro e seguiu para o norte em alta velocidade, mesmo com a dificuldade de manter o carro na pista. Dez minutos depois o posto inteiro explodiu. Sim, ele tinha incendiado o estabelecimento, só não se lembra como.
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Esfriara muito à noite. Tentou dormir no carro, mas não deu. Achou vários papéis jogados no porta-malas e fez uma fogueira. Deitado e encolhido, encostado na roda dianteira direita, tentava lembrar da última vez em que viu um ser humano. Não conseguiu. Contentou-se em enxugar outra garrafa de uísque barato.

Uma prece para ninguém - Capítulo 3




A caminhada até a praça central da cidade fora torturante. Em um estado de torpor, contemplava os edifícios e as ruas sem nada entender. Ninguém à vista, como se a cidade inteira tivesse sido evacuada. As pessoas sumiram. Não havia barulho. De vez em vez um aleve brisa batia-lhe no rosto, aliviando o calor do sol forte.
Parou na porta da cafeteria onde almoçava todos os dias. Teve medo de entrar. Apenas entreabriu a porta. Estava escuro. Ninguém lá dentro. Era quase meio-dia e a cafeteria estava vazia em uma sexta-feira. Isso é impossível, não existe. Os lugares ali eram disputados a tapa a partir das 11h. Onde estava a garçonete gorda e asquerosa que atendia a todos com um mau-humor terrível? Cadê o segurança mal encarado? Onde estava a balconista que havia sido sua amante por quatro anos?
O estabelecimento vizinho era uma loja de CDs. Espiou pela vitrine o interior e percebeu a luz acesa. Tomou coragem e entrou. Estava vazia. Viu na estante de lançamentos um título lançado no da anterior, com o melhor de um guitarrista de heavy metal. Colocou o CD no aparelho de demonstração e o escutou no último volume, imóvel, por mais de uma hora. Impulsivamente, colocou outro título de um artista barulhento e iniciou uam espécie de coleta nas prateleiras do que o interessava.
Estaria ele roubando? a cabeça doía novamente. Com quase quarenta CDs em uma sacola, deixou a loja com a música ainda tocando. Parou na esquina. Voltou e colocou a sacola na porta, do lado de dentro. Para que levar os CDs? Se o mundo não existia mais, ele poderia escutar o que quisesse na própria loja quando quisesse.
Será que ainda existiam alimentos? Checou o supermercado da avenida principal e lá havia comida de sobra. Os freezers e geladeiras funcionavam normalmente, abarrotados de produtos, mas não havia sinal de seres humanos. Enquanto comia algumas frutas, tentava imaginar o que estaria acontecendo. Descartou estar sonhando, pois aquela maçã que mordia era bem real. Evacuação em massa? Por quê? E como não percebeu a evacuação? Guerra química ou bacteriológica? Mas não havia mortos em lugar algum. Bomba de nêutrons, aquela que mata os seres vivos e preserva as edificações? Mas onde estavam os mortos?
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O sonho de consumo estava ali, na próxima esquina, na concessionária mais luxuosa da cidade. Era um Porsche Carrera 909. Ele procurou a chave por mais de meia hora em toda a loja até que achou-a no escritório do gerente. Não havia o menor vestígio de seres humanos por lá. Escolheu entre vários modelos e cores um Porsche preto com frisos dourados. Deu sorte, o tanque estava com meio tanque de combustível. Acelerou alto e devagar saiu da concessionária.
Passeou por toda a cidade e nada de seres humanos, ou melhor, nada de seres vivos. Ninguém para incomodá-lo. Ninguém para persegui-lo. Poderia passar à vontade pelos semáforos vermelhos e em alta velocidade sem receio de ter más surpresas.
Em vez de estar chocado, atônito com a situação, estava surpreendentemente alheio. Não se incomodava. e daí que o mundo tinha acabado. O problema não era dele. Sobreviver? Mas sobreviver a quê, com quem e para quê?
Passou no outrora movimentado aeroporto da cidade. Nem vestígio de nada. Ninguém. Nenhum barulho. Todos os aviões nos hangares. Todos os guichês vazios e inoperantes. Tentou mexer em um computador mas não acessava coisa alguma, muito menos internet. Conseguiu chegar a muito custo na torre de controle. Estava vazia. Todos os equipamentos estavam ligados, acesos, mas em nenhum deles via-se qualquer informação. No equipamento que deveria acusar tráfego aéreo na região, apenas uma tela vazia. O rádio estava silencioso. Não havia comunições. Não havia aviões nos céus do mundo. Que mundo?

Uma prece para ninguém - Capítulo 2


Ele não se conformava com a sua dificuldade de locomoção. Demorou muito tempo para chegar a sua cama. Deitado, esperava a dor de cabeça passar. Ela diminiui e permitiu que ele tentasse ordenar os pensamentos. O quarto estava escuro. Tinha de ser assim. Qualquer facho de luz o incomodava. Sua sorte é que o silêncio era total. Estranho. Morava no centro da cidade e imaginava que deveria estar agora no meio da manhã.
Quanto mais tentava se lembrar do que teria ocorrido, menos as coisas faziam sentido. Bebera bastante? Sim, como sempre. Ficara bêbado? Sim, como sempre. Drogas? Nunca as usou com frequência. Havia anos que estava limpo. Onde era a festa? Não se lembra. O que tinha bebido? O de sempre.
Logo percebeu que a cama estava encharcada de sangue. Estava com um corte não muito profundo na cabeça, atrás da orelha direita. Percebeu também que o chão do corredor que liga o quarto ao banheiro estava tomado de sangue. No entanto, só agora percebeu que, ao se arrastar nu de volta ao quarto após o banho, tinha mergulhado nas poças de sangue. Estava imundo.
A idéia era tomar outro banho. Tentou se levantar. Não conseguiu. Algum tempo depois (horas, talvez?), fez nova tentativa. A cabea pesa toneladas, mas doía mais. Lentamente levantou-se e, passo a passo, chegou na porta do banheiro. Antes de entrar no box, resolveu olhar no espelho da pia. Não se reconheceu. Tentou fixar a imagem. Era ele mesmo? Passou as mãos no rosto. Foi seu último gesto naquele momento, pois nada mais enxergou. Entretanto, teve ainda a desagradável surpresa de ter ouvido o barulho do choque de seu corpo com o chão.
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A confusão mental parecia estar indo embora. Ele já conseguia andar sem ter de se escorar nas paredes. Ele conseguiu sentar e se levantar diversas vezes de sua poltrona preferida, aquela com manto cinza por cima do estofado barato. Depois da enésima tentativa de entender o que estava acontecendo, percebeu que o silêncio estava insuportável. Nenhum barulho na rua. Nada.
Ligou a TV. nenhum canal sintonizava. Todos estavam fora do ar. Não havia chuviscos na tela, apenas uma imagem azul, como se não houvesse qualquer sintonia. A antena externa estava com defeito, pensou. Foi para a cozinha. A TV de lá era portátil e com antena própria, desvinculada da antena do edifício. O mesmo fenômeno ocorria. Ok, a TV principal não sintonizava nenhuma emissora, mas a portátil também não?
Surpreendeu-se ao praguejar violentamente. Que bom, estava voltando ao normal. Foi ao enorme aparelho de som e tentou sintonizar uma emissora FM, a sua preferida, aquela que tocava heavy metal em suas variações mais extremas o dia inteiro (e que tanto foi motivo de conflitos e confrontos com todos os moradores do edifício. Nada. O aparelho estava ligado mas nao sintonizava nada. Rodou o botão do dial e nada. Nenhuma emissora pegava.
Sem perder muito tempo em buscar explicações, colocou um CD de uma banda de black metal. O barulho agora era uma necessidade. Queria mastigar algo, mas só conseguiu engolir uma maçã.
Pela janela da área de serviço, fechada, observou frestas de sol. Respirou fundo e decidiu encarar o dia. Foi até a sacada da sala e de uma vez abriu as portas inteiriças. Demorou um tempo para se habituar à forte luminosidade. Saiu, pé ante pé, e apoiou-se na mureta. O silêncio era enervante. Olhou para baixo. A rua estava vazia. Ninguém na calçcada, nenhum carro passava. Esperou para observar algum movimento. Passado algum tempo, implorou por algum movimento. Inexplicavelmente, começou a tremer. E viu-se chorando mais uma vez, sem saber o porquê.

Uma prece para ninguém - Capítulo 1



As imagens não estavam muito claras. Muitas luzes, muito barulho. Ele não conseguia levantar a cabeça. Tentava se escorar nas paredes. Tentava falar com os vultos que o assombravam no meio do recinto. Não conseguia emitir som. Tentou andar. Não dava, parecia que sua perna estava presa, pregada ao chão. Tentou esticar a mão. Não alcançava nada. Na verdade, sequer cosenguia distinguir o que queria alcançar, o que queria segurar. No imediato momento seguinte, sentiu vertigem e se preparou para desabar ao chão.
A queda parecia lenta, bem lenta. Esboçou um leve sorriso, ao perceber que estava demorando muito para atingir o solo. Não soube precisar quanto tempo pareceu flutuar, mas o fato é que o chão não chegava. E o curioso é que os vultos que passavam ao seu lado, ou perto dele, pareciam ignorá-lo. Ninguém o fitava. Nem de longe. Ele queria gritar. Não ouvia a própria voz. Só barulhos, só ruídos. Música alta? Não. Gritaria? Não.
Tentou fechar os olhos. As imagens difusas e coloridas continuavam a atormentar-lhe.Teve a impressão de ter cerrado os olhos, mas as luzes e as imagens, agora mais velozes continuaram. Mesmo com os olhos fechados, percebeu que algo, ao longe, à frente, ia muito rápido em sua direção. Ou será que era ele que ia em direção à coisa? Não sabia o que era e nem teve tempo para tentar descobrir. Tudo acabou de imediato.
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Acordou completamente encharcado de suor e algo pastoso. Parecia sangue. Com muito custo, percebeu que estava no corredor que dava acesso ao banheiro. A cabeça explodia de dor. Latejava. Rastejou até a porta do sanitário e tentou mirar o chuveiro. Parecia um esforço sobre-humano. A distância parecia muito longa. Não sabe quanto tempo demorou, mas conseguiu ultrapassar a divisória de vidro. Estava dentro do box. Mais um esforço grande para abrir a torneira. Inútil. Tentou de novo escalar a lisa parece de azulejos. Quase não acreditou quando a água gelada começou a cair na sua testa. Desabou no chão novamente e ficou provavelmente horas caído, recostado na parede, recebendo o jato gelado de água ora no rosto, ora na cabeça. Por um momento, pensou que estivesse chorando. Ele estava chorando.

Como filhote do Superball Express, esse Superball Literature é apenas um apêndice de seu irmão mais velho para que a produção de textos não-jornalísticos e não-opinativos fique mais fácil de ser acompanhada. Divirtam-se.