Depois de muito tempo, o dia ameaçava finalmente raiar, mas ainda assim a escuridão tomava conta do horizonte. A chuva cessara, e ele hesitava a cada pensamento. O penhasco não estava muito longe, e a hora de decidir era aquela, imaginou. Tudo caminhava para aquele desfecho, mas um medo insano o imobilizava por completo.
E eis que os sinos voltaram a badalar. Ali, deitado de lado, protegido por uma rocha saliente, começou a tentar se desvencilhar daquele ruído que lhe soava insuportável. O sonho estava real demais e já era hora de despertar, só que nada acontecia.
Os sinos começaram a ficar nítidos. As badaladas estavam mais próximas. Olhou para cima e percebeu uma claridade inquietante. Com muita dificuldade, ergueu-se e observou uma espécie de casa a cerca de 300 metros de onde estava, na outra estremidade do penhasco. A casa não estava ali quando chegou ao topo.
Parecia com um autêntico sobrado de praia. Bem no alto, no que parecia ser a frente da propriedade, um sino, dando um aspecto de igreja. A casa estava toda iluminada. Na mureta da frente da casa, a menina de vestido branco estava sentada e olhava de modo distraído para o horizonte.
Sentia-se agora completamente atraído por aquela visão que sabia (sabia?) ser irreal. Aquilo era uma visão, a casa não existia, não estava ali quando ele atingira o topo. Mas a visão estava real demais para ser ignorada.
Pensou que finalmente conseguiria tocar a garota, depois de se aproximar com muita dificuldade da casa. Se ela era a resposta para tudo, já era hora de ela revelar o que realmente estava acontecendo no mundo. Ele não percebera, mas a garota não estava mais na mureta, e sim dentro da casa, olhando para ele de uma janela lateral.
Subiu a pequena escada que dava acesso ao que seria uma varanda e dirigiu-se à porta de entrada. Como que por pensamento a porta se abriu. A claridade dentro da sala era tanta que ofuscava completamente a vista. Só depois de algum tempo é que ele conseguiu ver onde estava e o que era aquele ambiente. Aos poucos a casa começou a ficar familiar. Ecos da memória começaram a pipocar em sua mente, escavando e resgatando fantasmas há muito escondidos no subconsciente.
A garota continuava com seu olhar inquisitivo, amedrontando-o. Enquanto começava a suar frio, o cordão de metal envolta de seu pescoço pareceu-lhe mais pesado e mais apertado. A sensação de desconforto aumentava na medida em que a menina olhava cada vez mais fixamente para ele. Amparou-se em uma das paredes da sala e agora estava sufocando. O cordão estava cada vez mais pesado e apertado. O calor estava insuportável e sentia que a medalha do cordão queimava-lhe a pele do peito. Aos poucoa começou a arriar pela parede, com fraqueza aumentando bastante. Pela primeira vez sentiu medo da morte.
Enquanto se mantinha sufocado e de joelhos, a menina aproximou-se, mas não tao perto. Ela apontou o dedo indicador da mão direita em sua direção. Subitamente a pressão no pescoço diminuiu e ele passou a respirar com um pouco mais de facilidade. O medalhão no peito parou de queimar, mas o cordão permanecia pesado.
A menina virou-se e foi para uma escada, subindo lentamente. Mesmo enfraquecido, estava sendo impelido a segui-la. Levantou-se com dificuldade e foi á escada. Amparado pelo bastão, começou a subir lentamente. Após alguns minutos, já no alto, viu a menina entrar no que parecia ser o quarto principal, de onde vinha um forte vento e uma claridade cegante.
Nem percebeu quando chegou ao quarto. O que percebeu era que ali dentro todo o barulho cessou. Um silêncio reconfortante dominava o ambiente, que estava muito bem decorado. Uma enorme cama estava do outro lado do recinto, coberta com o que parecia ser um lençol de seda. Os móveis - mesas, cadeiras, criado-mudo, penteadeira - eram todos de estilo clássico, de madeira escura. O papel de parede era claro, avermelhado, e o lustre era enorme, cheio de pingentes.
Na cama, uma mulher deitada, com a cabeça no colo da menina de branco. Quando pensou que o ambienbte lhe traria paz de espírito, a visão das duas mulheres na cama caiu como uma bigorna em sua cabeça. O silêncio tornou-se opressor novamente, o cordão começou a apertar-lhe novamente o pescoço, sufocando-o. Caiu de joelhos, ao mesmo tempo que um turbilhão de imagens passavam pela sua mente.
O rosto inerte da mulher na cama era conhecido. Era muito mais do que conhecido. O peso de anos e anos de fuga e desespero caíam agora sobre os seus ombros. Jamais poderia escapar daquilo que poderia ser chamado de justiça atemporal: onde quer que esteja, seja aonde for, a justiça será feita.
Com muito medo e pavor, sufocado pelo cordão, olhou novamente para o rosto da garota deitada na cama, que vestia uma túnica vermelha. Imediatamente vieram as imagens da linda e fulgurante garota que jazia na cama sorrindo e correndo pelo gramado de uma imensa propriedade. Em seguida, ela subia uma imensa escadaria, que parecia não ter fim. A escadaria era a mesma da casa onde esava naquele momento. Assim como o quarto da imagem seguinte era o mesmo onde estava. A garota chorava enquanto agarrava-se a uma cortina, tentando se proteger de golpes dados com bastão. Ele reconhecia a mão que segurava o bastão. Aquele relógio o denunciara. Era o seu próprio relógio de pulso, aquele que ganhara de presente do pai quando tinha 12 anos de idade e o qual jamais tirou do pulso.
As imagens começaram a ficar cada vez mais rápidas. Agora, em sua mente, a garota estava deitada, inerte e ensanguentada com a mesma roupa, na mesma posição e na mesma cama que via quando abria os olhos. Aí começou o fogo.
Abriu os olhos depois de um espasmo de desespero e percebeu que o próprio quarto onde estava tinha chamas na cortina da janela e na cama. Caindo de fraqueza, estava agora deitado, tentando inutilmente arrancar o cordão do pescoço, que apertava cada vez mais.
Estava prestes a desfalecer quando a menina de branco aproximou-se e tirou o cordão do pescoço. A garota de túnica vermelha estava oa lado da garotinha e apresentava um bonito colar com a letra V no medalhão. Ela olhava fixamente para o rosto dele, quase enegrecido pela fumaça.
A garotinha retirou o cordão e colocou-o na frente do rosto dele para que pudesse vê-lo. Em lugar do medalhão, havia uma frase escrita: "Vitória se foi". O desespero dele foi tamanho que sentiu uma dor lancinante nas costas. Não é possível que Vitória havia voltado para transformar sua vida, ou o que restava dela, num inferno.
Mesmo diante das imagens incontestáveis que foram induzidas em sua mente (assim acreditava), ainda se recusava a crer que a havia matado. Aquilo era um sonho, um desagradável sonho, por mais que a fumaça invadisse agora as suas narinas e os pulmões. Antes que a mesma fumaça o obrigasse a fechar os olhos, ainda teve tempo de ver a menina e Vitória saírem do quarto de mãos dadas como se nada estivesse acontecendo. e não esqueceram de fechar a porta.
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Estava deitado nu em um quarto completamente escuro. Estava frio e não conseguia sentir nenhuma parte de seu corpo. De algum lugar de fora do quarto, escutou o seguinte diálogo:
- E agora?
- Apenas mate-o.
Foi a última coisa que ouviu.

