Thursday, January 03, 2002

Morte no Gelo - Capítulo 4 (final)




À nossa frente não havia nada. Não éramos mais vinte. Dez, talvez. Não importava mais. Alguns iam caindo e ficavam encravados na neve. Mortos? E daí? Ali era o nosso fim.
Caminhamos um pouco mais e já éramos bem menos de dez. Estamos longe de tudo. Silêncio total. Terra branca, frio congelante. Ali não é meu lugar, mas estou condenado a ficar ali para sempre. Um lugar perfeito para aqueles que realmente nunca existiram, nunca foram gente. Não haverá amanhã, não há perspectiva alguma. Não há mais vida.
Estou cansado, minhas pernas fraquejam, minha boca fica seca. Caio de joelhos e nada mais enxergo. Está difícil enxergar, respirar, me mover. Não dá mais. Estou caindo...
Um último suspiro serve-me de alento. Estou deitado na neve. Abro lentamente os olhos. Tudo igual. Branco, gelado e silencioso. Não ouço mais nem o caminhar nem o respirar daqueles que me acompanhavam. Estou só.
Lembro-me da última batalha, horas atrás. Devia Ter morrido lá. Não deixo rancor, pois tudo o que restou de minha memória é uma vaga lembrança de uma existência podre. Não deixo legado, pois ele não existe. Não deixo amigos, pois nunca os tive. Não deixo amor, pois ele não existe. Lamento ter nascido, lamento o mundo ter existido. Será que agora terei paz?

Morte no Gelo - Capítulo 3





A pior coisa que poderia ter nos acontecido foi sobreviver ao inferno. A morte era a melhor companhia naquele momento, mas até mesmo ela tinha nos abandonado. Não sabíamos mais o que fazíamos nem para onde íamos, não caminhávamos mais em linha reta. Poucos de nós sabíamos o que fazíamos.
Eu estava transtornado. As imagens que vi nas últimas horas, nos últimos dias, simplesmente me entorpeceram e me tiraram da realidade. Talvez por isso tinha sobrevivido.
Homens varridos como moscas naquele bosque gelado, cortados ao meio por rajadas de metralhadoras invisíveis. A hedionda chacina que cometemos em uma aldeia, com a decapitação de mulheres e crianças bem à frente de seus familiares. O assassinato a sangue frio de prisioneiros. A morte de amigos como Âncora, esmagado pelas esteiras de um tanque de guerra. Logo ele, o mais cruel assassino de nosso batalhão, o mais sádico e sanguinário.
Aquilo tudo era a forma mais eficaz de morticínio. Transformar seres humanos em máquinas de guerra, em máquinas de matar. Era aquilo que éramos, ou melhor, fomos. Aquilo era capaz de mover o mundo inteiro em defesa de um ponto de vista, de uma ideologia, por mais abjeta que ela fosse.
A guerra é a forma mais eficaz de jogar os homens no abismo mais profundo da alma e do cérebro. A guerra propicia experiências fascinantes do comportamento humano. Faz dos homens peças de um jogo mórbido onde na se ganha, tudo se perde. A guerra transforma tudo, revoluciona, redicreciona pensamentos, conceitos, idéias, teorias e exalta a morte. A guerra vira a lei da vida.
Homens mortos aos montes, membros balançando em árvores, cadáveres por todos os lados, sangue encharcando o mundo, cabeças voando como bols chutadas, explosões iluminando a noite, fogo carbonizando enormes pilhas de seres irreconhecíveis. Homens sem pernas rastejando por um fio de esperança de vida.. Gente comendo insetos, amigos retalhando amigos vivos para saciar a fome. Homens matando, homens mutilando, homens assassinando, homens cortando, torturando e tendo prazer com isso...
Morte no Gelo - Capítulo 2



Não conheço as virtudes do ser humano, assim como elas não me conhecem. Eu me odiava, mas logo isso deixou de ter importância. Nada importava mais. Tudo o que eu era, nunca fui, tudo o que fui, jamais o fora. Tudo o que sou, não serei nunca mais.
Sempre quis ser responsável por algo, alguma coisa. Eu me sentia bem quando isso acontecia, por mais insignificante que fosse a circunstância. Agora eu não era nada, não era ninguém. Um ser repugnante, repulsivo, caminhando naquele lugar esquecido por Deus. Deus esse que acaara com nossas vidas, que nos apontava o braço e nos impedia de ter um amanhã. Que Deus é esse que se apossa de nossas vidas e nos joga em um vale de lama e de morte? Deus é um sádico.
O vento soprava do leste era gelado e forte, seu uivo apenas nos lembrava que ainda estávamos vivos. Havíamos atingido um nível extraordinário de degradação humana e moral. Nossas noções de decência foram trocadas pelo espírito repulsivo e nojento de uma civilização marcada pela podridão. E nós aqui, nesse deserto gelado, vítimas dessa civilização indecente.
Meu uniforme já não me orgulhava mais como antes. Ele representava tudo o que tinha me transformado naquele ser indesejável que caminhava na neve em trapos. Acima de tudo meus deveres. Obediência suprema aos meus superiores incontestáveis. Qcima de tudo minhas obrigações, o Código de Honra, a lealdade ao Estado, à sociedade podre, submissão completa a uma sociedade que se achava (ou pensava que se achava) em perigo, uma sociedade que se achava plena e total.
Um patrulhamento total, um patrulhamento desumano, um despotismo hostil e homicida, tudo para manter uma doutrina e uma ideologia lunáticas. A vida de milhões passando a não valer nada, meros fantoches manipulados por uma casta formada pela pior espécie de sujeira que pode existir, a escória de toda uma raça que já foi gloriosa.
Morte no Gelo - Capítulo 1





Éramos pouco mais de vinte. Metade semimortos, metade praticamente mortos. Não havia nada entre nós e o mundo a não ser a imensa terra gelada e sem vida onde estávamos. Naquele momento nada existia para nós. Nada víamos além do nada. O frio era tão intenso que não mais o sentíamos.
Não passávamos de um bando de criaturas horrendas, famintas, esfarrapadas, humilhadas e quase trucidadas pelo rigoroso inverno e pelo inimigo, que continuava a nos assolar. Fugíamos de algum lugar oara lugar algum.
Nada naquele momento nos assustava mais. Depois de tudo o que passáramos, nada era capaz de provocar qualquer fresta de medo. Apenas caminhávamos. Havíamos saído de um inferno, mas estávamos agora em outro.
A vida ensina muita coisa. Uma das mais cruéis, sem dúvida, é aquela nos ensina a deixar de ser gente. Nesse estágio, nada mais nos importa. A realidade agora a era aquela maldita planície gelada e branca. Ela estava situada entre o inferno e um mundo em chamas.
Estávamos no limite de de nossas vidas. Estávamos sendo cobrados. Agora era fácil perceber: quantas vezes reneguei minha condição de ser humano para incentivar minha sanha de sangue? Quantas vezes observei meus companheiros terem um comportamento psicopata e selvagem sem ao menos me importar com aquilo? Afinal, eu mesmo era um animal.
Os Pássaros - Capítulo 2 (final)



Às 5h50 o garoto caminhava por uma trilha que levava ao penhasco. Estava quase na hora do retorno dos “heróis” . a revoada dos pássaros logo surgiria no horizonte, sete horas depois de duros e intensos combates.
Toda uma vida estava em xeque naquele penhasco. Ali estavam todas as angústias, apreensões e esperanças de um ser que só tinha olhos para um único aparelho. O garoto sentara em uma pedra como os olhos fizos no horizonte. A dúvida martelava a cabeça: ele voltaria desta vez?
Os primeiros do bando de pássaros começavam a aparecer, sob o brilho do sol ainda incipiente da manhã. Da massa compacta que partira sete horas antes, voltavam apenas pássaros sozinhos, debilitados, desgarrados e soltos. Os intervalos são longos. Quando um aparece, vem com os motores falhando e fazendo aterrissagens lamentáveis. Os bombeiros ficam a postos na pista, esperando pelo pior.
Foram duas horas de apreensão e estômago contraído de medo. Foram poucos os aviões que retornaram. De todas as vezes em que foi esperar o pai retornar, aquela mostrava que algo estava errado. Premonição?
Depois que o último avião pousou em condições péssimas, ele permanceu ainda por três horas naquele penhasco. Depois, levantou-se e seguiu de cabeça baixa pela trilha de volta à pequena aldeia onde morava. Na sua cabeça, apenas o desejo de ter um bom dia.


Ao entardecer o garoto passeava pela praia. Cabeça baixa, nem se incomodava com o vento frio do oceano. Estava bem próximo de uma pequena baía na ponta da enseada. Ali estavam os destroços de um avião trazidos pelo mar.
Com lágrimas no olhos, o garoto arrastou um pedaço grande de uma asa do aparelho destruído para perto do paredão do rochedo. Pacientemente, começou a enterrar pelas próximas três horas o pedaço de asa. Era apenas uma simplória cerimônia fúnebre. Seu pai não havia retornado. Agora havia mais um lugar vago no ninho.


Os Pássaros - Capítulo 1





“Daqui a duas horas sairemos novamente. Os ataques estão se intensificando. Dois, três dias. Não suporto mais isso. O céu já não existe mais, aquilo é apenas um enorme vazio. A noite é o fim de tudo. Ou o começo. Daqui a duas horas as hélices começarão a funcionar. Não dá mais. Ontemo esquadrão 18 não voltou. Dos 50 e tantos aviões que saíram, nenhum apontou novamente no horizonte para pousar. Meu irmão era um deles. Acho que estou ficando louco.”
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O alarme soou exatamente às 23h30. Os aparelhos começaram o ronco dos motores imediatamente, que ecoaram por toda a região. Ele foram em direção ao mar. O farol da barra estava apagado (medidas de seguraça). Os caças partiram logo em seguida.
Euquanto os aparelhos cruzavam a noite rumo ao infinito, ao desconhecido, , alguém, lá embaixo, em um penhasco, observava atentamente o enxame de bombardeiros e caças. Foram mais de 50 minutos até que o último desaparecesse no horizonte escuro.
Eram os olhos de um garoto fascinado, que tentava em vão contar os pássaros do apocalipse. Os olhos estavam vidrados naquela que era mais uma missão de morte. Os olhos do garoto acompanhavam a morte voadora, seguindo a triste sina de toda uma geração calcinada entre ferros retorcidos de aviões destruídos. Os olhos de um garoto tentavam descobrir naquele enxame o avião do pai, na esperança de que voltasse mais uma vez.
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“O alvo não está longe. Pedi dispensa no último minuto, mas foi recusada. Estou nervoso. Depois de tanto tempo despejando morte, estou incomodado no banco de co-piloto, que ocupo há tanto tempo. Isso é mau sinal. Olho pela janela e vejo toda a esquadrilha em formação. Era um autêntico balé aéreo, pronto para entrar em ação. Em nosso avião bombardeiro, silêncio. O oficial de comunicações não tira os olhos do radar. O artilheiro da traseira está debruçado em sua metralhadora, concentrado. Dolorosa impaciência. Não suporto mais isso. Quero saltar agora...
O líder da esquadrilha comunica: dez minutos para o ataque. Os caças inimigos logo iriam aparecer. O comandante estava calado desde a partida. Ele também não estava bem. Vejo que será uma longa noite.”